domingo, 2 de outubro de 2016

Fin



É inútil cercar de sonhos um mundo que é feito de eternas ruínas.

Este blog está morto.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Um empata discorre sobre a empatia sarcasticamente


 

Esse mês, começou uma campanha para ajudar na prevenção de suicídios, então ouvi muito falar em empatia, como se fosse o bálsamo ungido do santíssimo capaz de salvar a humanidade de toda moléstia. Aquele que acha que a empatia é algo assim super legal com toda certeza se esqueceu de se colocar no lugar de quem tem essa habilidade. Para mim a empatia deve ser *A* habilidade mais mal-projetada dentre *TODAS* humanamente disponíveis.

Imagine conseguir se colocar no lugar das outras pessoas, sentir o que sentem e conseguir ajudá-las da melhor forma possível, fazê-las se sentirem bem e especiais pelo que são. Estar um passo à frente, intuir os sentimentos, saber como os outros são sem precisar ouvir nem mesmo uma palavra, saber o que necessitam, quando estão dispostas a ir ou a ficar ou quando mais precisam de ajuda. Parece mesmo fantástico.

Bom, para entender como isso pode ser uma tragédia humana, vamos imaginar que você tenha empatia. Pare um momento e comece se colocando no lugar de uma outra pessoa qualquer que você conhece. Agora se pergunte: essa pessoa é mesmo feliz? Possivelmente não. Você não precisa conjecturar: bem lá no fundo, há algo que a entristece e você consegue saber o que é, e tem certeza disso, porque sente na própria pele. Essa pessoa tem esperanças de ter uma vida melhor? Você olha bem e descobre que não. Bom, pelo menos ela tem saúde. Não, também não. OK: na pior das hipóteses, a família dela a ama e a apoia - então você conhece a família dela, se coloca no lugar deles e sabe factualmente que todos se odeiam ou pior ainda, não sentem titica um pelo outro. Enquanto isso, lá está você, todo empático, sentindo-se mal por todos e a família inteira.

Mas não para por aí: sabendo de toda a situação, você acha que pode contribuir para uma vida melhor e mais feliz para essa pessoa que imaginou. Errado. A pior coisa que pode acontecer na vida de alguém infeliz é saber que outro sabe que ela é infeliz. Porque a infelicidade é o maior segredo na vida de todas as pessoas infelizes, guardado a sete chaves, impossível de ser admitido. E todos querem distância de quem tem qualquer intuição a esse respeito.

Mas ainda nem chegamos no maior problema. O maior problema da empatia - e que também a define - é que existe uma parte em você que sente o que o outro sente. Sem um botão de liga/desliga. Sem filtro. É pura passividade: algo solto para ser como o outro, que se deixa conduzir pelos sentimentos e pensamentos alheios. Se o empata sente o que o outro sente, como consegue distinguir quais são os sentimentos dele e quais são os dos outros? Imagina a confusão. Um dia você é parte estúpido, parte genial, parte filha-da-puta, parte psicopata, parte homem, parte grávida, parte branco, parte preto, parte mal-humorado, parte palhaço, parte criança, parte animal, parte lésbica, parte cafajeste, parte amigo leal, parte com dores e unha encravada, parte aquele-cara-daquele-seriado, parte monge zenbudista. Você pode vir a ser qualquer coisa que der na telha de quem te percebe. É preciso de uma força de vontade impossível e disciplina supereróica para conseguir encontrar lucidez para ser coeso. Aí no fim do dia você discorre sobre a empatia e refuta a si próprio inadvertidamente.

Agora pode parar de pensar no outro. Sim, que alívio, por isso que ninguém é louco de tentar ser empático. Aposto que você nem tentou se colocar no lugar de outra pessoa, né? Pra que alguém vai querer se sentir mal de propósito, certo? Para evitar empatizar com qualquer indivíduo, todos vivemos nossas vidas isolados em nossos mundos e quando um empata ou qualquer outro aparece em nossas vidas, damos a ele um papel qualquer, coerente com a ficção que temos em nossas cabeças, de forma que, quando ele tenta fazer alguma coisa, já temos interpretadas suas ações,seus motivos completamente traçados e resta a ele interpretar esse papel, atendo-se fiel e teatralmente ao texto. Assim um empata com as melhores intenções do mundo pode ser percebido como ameaçador, estranho, indistinto, ininteligível, distante da realidade e ser completamente neutralizado pelas criaturas habitantes do nosso pântano mental. O mais louco e o pior de tudo, é que quando ele vem ajudar, percebe mesmo todas as quimeras da nossa ficção interior: só bizarrice, fast-food e netflix. Ele nada pode em face a esses monstros. Quem dirá prevenir suicídios.

Talvez melhor que a empatia seja o comprometimento, a aceitação das diferenças, o envolvimento irrestrito, o perdão, a reciprocidade, o interesse sincero - acho que isso é o que queriam dizer com empatia. Ter empatia não é para os fracos. Melhor fugir até.

domingo, 4 de setembro de 2016

into the blue / out of the black



Há um ano mais ou menos eu entrava em depressão, o que complicou um pouco as coisas. A falta de saídas e o consequente desespero não ajudou em nada também neste último ano.

Viver com uma rotina estressante de estudos, reuniões, apresentações, relatórios, pressão crescente, professores abusivos, colegas apáticos, horários coercitivos, sem sol, sem prol, sem causa justa, sem perspectiva, sem dinheiro, sem qualquer segurança, sem amigos, sem reciprocidade, sem nenhum afeto, sem nada de novo jamais acontecendo, sem nunca sair, sem viajar, sem ver a vida, sem nenhum vício - não pode produzir um resultado diferente da depressão. Durante a semana, ou estava trabalhando, ou esmagado em livros e compromissos. Nas folgas, assim como passava dias inteiros sem dormir, passava dias inteiros dormindo, sem abrir as janelas, sem abrir as portas, sem andar, sem sair do lugar, sem falar com ninguém, sem comer, sem beber, olhando reto pro teto.


Estudar na UFRGS é um cobertor curto para quem é pobre e sem recursos: se você trabalha muito, consegue apenas estudar para passar raspando nas cadeiras da faculdade. Ser aluno na UFRGS limita os trabalhos que pode pegar, devido a horários impossíveis e imprevisíveis, espalhados em três turnos diferentes e também o quanto em dinheiro pode ganhar (estágios não pagam o suficiente para se ter autonomia completa). Trabalhar e estudar limita a atividade social e o tempo que dedica à saúde. É mais ou menos assim: 1) se acontece um problema no lado profissional, não tem como custear os estudos; 2) se há um problema com os estudos, a faculdade não te deixa seguir trabalhando, pela redução das taxas de desempenho; 3) se há problema de saúde, aí já eras; comigo, as três coisas arrebentaram ao mesmo tempo quando a depressão se agravou, tornando toda a situação insustentável.

Comuniquei à minha família minha intenção de viver para estudar durante um ano, o último restante para a formatura, e pedi apoio para custear a faculdade - o que daria $300/semestre, considerando a vida monástica que estava levando, menos ainda, se contasse com meus freelas. Eles responderam que eu precisava de um trabalho. Expus a situação, que não podia pegar mais estágios por causa das taxas de desempenho e não sabia o que fazer, pois qualquer emprego que pegasse me obrigaria a largar de vez a faculdade, mesmo tão próxima do fim. Pela enésima vez na vida, ouvi que eles nada podiam fazer para me ajudar. Isso não é nenhuma surpresa: faz uns 20 anos que não recebo um centavo de minha família. Comuniquei a eles que iria fazer por mim mesmo para me ajudar, ia continuar com os estudos até onde desse, mas que tinha intenção de me matar assim que a dívida estourasse e não fosse mais possível seguir adiante com a faculdade. Minha mãe riu dessa ideia e esse foi o fim da conversa. Aquele era um pedido de ajuda e uma decisão, radicados em realismo e desespero: a dívida ia estourar antes do fim do ano, o ano que precisava para concluir os estudos, não ia ter remédio a não ser desistir dos estudos. A ajuda não veio.

Decidi então fazer um último gâmbito, investir em minha recuperação e bem-estar e esperar pelo melhor. Ou pelo pior, o que viesse primeiro. Era preciso movimentar a vida, ver se ela continuava. Sair na rua. Viajar. Fazer o que me faz bem. Tentar coisas novas. Ver gente. Viver que nem gente. Recuperar minha voz, meu corpo, minha clareza de pensamento. Reclamar direitos básicos para mim mesmo. Acreditar e aí tentar. É claro que há um custo para toda essa qualidade de vida, mas achei melhor pagar para ver de uma vez do que esperar por um fim lento, patético e cheio de lástima. A dívida estourou de vez ontem.

Felizmente, consegui um emprego anteontem. Emprego de verdade, não estágio. O gâmbito se pagou de alguma forma e vou poder voltar para o azul em breve. O ônus é que estou largando a UFRGS. É o que posso fazer nesse momento. A coisa boa é que vou poder transferir os estudos para uma faculdade particular: pela primeira vez posso pagar uma. Parece que tudo vai ficar bem.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Não é de todo mal



Húbris. Pode parecer um mal inofensivo, mas não é. Houve quem a classificasse como um dos sete pecados, e dentre todos, o maior. Há quem a veja como uma venda casada, como parte do pacote de quem é bem-sucedido ou genial, já que, muitas vezes, brios elevados acompanham grandes feitos, mas existe um mundo de coisas que pode transformar até a vista mais gloriosa em uma cena desoladora. "Foi pelo o orgulho que o diabo se tornou o diabo" é o que dizem. O orgulho cega; o orgulho destrói.

Alguns anos atrás me encontrei em uma situação em que tive de escolher entre duas decisões ruins após cometer um grave erro: 1) assumir a culpa pelo erro em silêncio e ver o trabalho e o esforço de toda a minha ser arruinado ou 2) justificar o erro contando a verdade sobre o que me haviam feito, apesar de ser uma situação vergonhosa e terrível (para mim e para outros), tentando explicar os motivos que me levaram ao feito, envolvendo diversas pessoas que não mereciam no processo, mas mantendo parte do que possuía.

Uma decisão simples para muita gente, que para mim não é. O jeito como me vejo e o papel que sempre assumi, enraizado em mim desde a infância, é o do protetor: para mim é natural que eu ombreie as consequências e os males por todos os outros, suporte a dor no osso e me alimente dela até ficar forte novamente. Se alguém está caído, eu o levanto; se fraco, eu o apoio; se me dá vantagem indevida, eu a devolvo sem me aproveitar dela; se sofre, eu tomo as dores. Podem parecer atos humildes (e são), mas ao mesmo tempo sempre tive muito orgulho de poder fazer isso, de poder ser forte por muitos, atos como esses afirmam o que sou; optar por uma decisão mais cômoda em prejuízo de outros, em meu íntimo, me invalida como pessoa. Para que vivo se não consigo fazer nem isso? É mais clichê que uma música do Creed, mas sou assim. Entretanto, quando tive aquelas duas escolhas, justifiquei minhas más ações com as dos outros, ao invés de aguentar todas as consequências sobre mim; dessa forma, agi contra mim mesmo e tudo o que acredito.

Não há um algoz melhor do a própria pessoa: agir daquela forma findou minha coerência: tentando condenar as ações alheias que precipitaram meus erros, vi que não tinha mais nenhuma base moral para dizer qualquer coisa. "Você assumiu toda a culpa como devia? Não? Então você não é melhor que eles" - é o que eu pensava. Recusei todos que tentaram me ajudar a resolver meu problema. Nem tentei contar com os amigos ou familiares para pelo menos ouvirem minha história e virem me apoiar; acreditava que não merecia ajuda de ninguém. Também não queria que me dessem razão, mesmo se por ventura estivesse certo, já que, por convicção, estava fundamentalmente errado. Por fim, emudeci. É um mal casamento: a companheira do orgulho é a vergonha e a vergonha é solitária, caprichosa e má. Cessei de me expressar de qualquer forma que fosse, nem visitas, nem recados, nem chamadas, nem emails, nem compartilhamentos, nem artes, nem fotos, nem gestos, nem sinais de fumaça; me isolei de tudo e de todos. Continuei a tentar fazer coisas ótimas no meu trabalho, como forma de alimentar meu orgulho talvez, mas não havia mais alguém em mim para se orgulhar. Nada me carregava adiante. O isolamento deu conta por fim de qualquer coisa que havia sobrado. A ruína é a que está aí.

A vida me colocou nessa situação rara, já que, em meio à queda, posso apreciar melhor todo o mal que o meu principal defeito fez e continua fazendo a mim e aos outros ao meu redor. Não acredito que alguém possa se livrar completamente de um vício que o define, mas tomar consciência dele pode ser capaz de direcioná-lo para coisas boas e menos autodestrutivas. Vejo hoje quantas oportunidades perdi de me aproximar de pessoas incríveis por não querer mostrar nenhum tipo de fraqueza - nunca havia pensado que talvez os problemas dessas pessoas fossem os mesmos que os meus (pensar que meus problemas são maiores que os dos outros é mais um ponto para a húbris).

Tenho buscado atividades que me fazem assumir mais riscos, principalmente os sociais e de pedir ajuda, algo que não sei fazer de forma alguma quando realmente preciso; tem sido uma experiência importante. Expor uma carência ou vulnerabilidade não é de todo mal: damos aos outros a chance de nos estenderem a mão e mostrar que estão ali, dispostos, juntos com a gente. Mesmo que isso leve a resultados cruéis e imprevisíveis, não há razão para ser orgulhoso e não tentar.
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