Lago Epilético
domingo, 4 de março de 2012
Tempo na praia
Eu desconfio do tempo
Os dias envelhecem
Em paredes descascadas
Eu desconfio do oceano
Quando o raso é pleno
E o pleno escasso
Pálpebras mergulham
Fiéis depositárias
De tanto azul
Respostas enrugadas
De pés descalços
Na sujeira, sempre brancos
Eu conto a areia
Que confino na minha mão
Mas ela passa rápido
Como luzes em cascatas
Tão passageiras
Na lataria de um carro qualquer
Esfriando pouco a pouco
O vento é carregado de inverno
Carinhos frios da manhã
A areia dança, vazia
Povoada de lendas incontáveis
Castelos abandonados às pressas
Sempre aguardando a visita do amanhã
Se aproximando a cada dia
Pisando sobre as nossas pegadas
Verão que termina
Alongando o gosto da vida
Nas horas perdidas da memória
Sem querer se lembrar daquele tempo
Em que todos terão passado
Ou serão passado
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Bem carnaval
Zumbi no pátio
Presilha à coxa
Zumbindo rápido
Sai de fininho
Num passo frouxo
Zumbido estranho
Na raiz do ouvido
Bem bisonho
Pela avenida
Vai ladrinhando
De lado a lado
Desadivinhado
De braço abraço
Mas volta envolto
Todo esculacho
Dentes soltos
D'azinhavre doudo
Cambalejante
Sambalereiro
Cara cabreiro
Acabeleireirado
Desembestado
Do sacolejante
Cuíca elétrica
Que empulgoa
Vai reanimando
De coisa boa
Vão se encopando
Goelas abaixo
Sons pululuando
De pés guinantes
Bem agitados
Num bate estaca
Serpenteia a rua
Desacinzenhoa
De serpentinada
A todo-espanto
Do duro embate
Varre as ventas de todos
Sob o chão da estática
Vão de fora à fora
Multicolores
São de todas cores
E até cinza
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Lesmas
Tragicômica, eu me divirto
Mesmo com tantos finais iguais
Tão clichê
Icônica, irrealística, clássica
Até parece que alguém a escreveu
Vida manhã celeste clara,
Agreste, agravada, esterilizada
Espreguiçando vogais e aves raras
Vida longe cinza viajada
De prédios rudes emparedada
Entre janelas abertas e lesmas
De si mesma
Vida por tantas portas afora
Música tão destrancada
Valsejada
Enfim
Tão levada a sério
Tão levada pelo ar...
De
carrosséis...
girassóis...
Às vezes prenunciando umidade
Amarrando lágrimas apertadas, uma a uma
A risos e poças rasas
Do seu jardim
Mas tão arrastada que quem vê o tempo até sente preguiça!
Eu acho graça
Assim se arrastando
A vida voa
Chuva boa, chuva à toa
Sempre te vem e vai
Num pingo
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Le feu follet
Aquela longa escada de pedra
Que não desce, contorna
O vale
Terrenos recortados
De lugares tão bonitos
Tão infinita quanto a tristeza
Tão finita quanto a alegria
Praias longas, estrangeiros
Os pensamentos comigo
Um após outro
Um após outro
Degraus
As palavras na minha cabeça
Espessas como fumaça de cigarro
Como um vício que nunca se revela
Ou aquela dor que te deixa mudo
Falando sozinha
As palavras, espessas
Na mente batem acordes acelerados
Som de síncope definitiva
Sentimento encorpado
Tocando os sinos das árvores
Agitam aquela decisão
Tão imprescindível e vital
Que nunca se perfaz
Porque você está triste
A mão pende do braço,
Que pende do corpo,
Que pende da cabeça, penso
Nada está certo
Por que caminho? E vazão?
Para onde haverá espaço?
O corpo se enjoa
Tanto sangue, tantos cortes
Singular que sempre se destaca
A realidade não sai de foco
Digressa
Assim se vai e tudo finda
Pedras, degraus
Já não se pára
Não se prende mais
Quem confia não atina quando
A vida se perde nas lembranças
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